domingo, 20 de setembro de 2015

Estatismo, Mas Pode Chamar de Ninrodismo ou de Idolatria Mesmo...

Ninrode: idolatrado até mesmo por quem
nem ouviu falar dele.


O Estatismo parece ser uma religião no Brasil. Embora a situação não pareça ser muito diferente em outros países, o caso brasileiro parece ser de uma profundidade que espanta até mesmo quem sempre viveu aqui. Evidências disso são, por exemplo, as promessas feitas em campanhas eleitorais comprometendo-se a criar um "Estado forte" ou um "Estado eficiente", as quais parecem seduzir os ouvidos inocentes com um poder quase mágico. As pessoas bradam chavões do tipo "eu tenho direito à segurança", "direito à saúde", "direito à educação", crendo sem vacilar que é dever do todo-poderoso Estado suprí-las por completo. As pessoas comuns, ao que parece, crêem que por meio do Estado serão realizados plenamente os ideais de justiça, igualdade, fraternidade, união e solidariedade, e quando perguntadas sobre a maneira pela qual o Estado atingiria essa perfeição romântica, as resposas variam desde o inocente "não sei" até manifestações quase cínicas em favor de um Estado totalitário, que controla a vida de seus cidadãos do berçario da maternidade ao túmulo.


Antes de iniciar minhas colocações, entretanto, devo salientar que não se deve confundir o Estatismo com a crença na utilidade do estado. O primeiro se refere à crença implícita (ainda que desmentida no nível consciente) da infalibilidade do Estado; e se expressa naquela atitude mental comum nos dias atuais que consiste em querer depender do estado para tudo. O segundo é a simples convicção de que o Estado tem sim um papel importante na consolidação e manutenção das instituições, das liberdades, da cultura e da identidade íntima de uma nação.



Essa crença estatista (que já foi mencionada neste blog - http://blogjuces.blogspot.com.br/2014/12/estatismo-uma-questao-de-fe.html), que vê o Estado como um plenipotenciário juíz e provedor de beneces encontra um paralelo espantoso nas palavras de Hegel, quando disse que o Estado é "deus andando na Terra". E essa não é a única ocasião em que o autor da "Filosofia da História" se refere ao Estado nesse tom de reverência solene, pois esta frase não foi apenas um insight passageiro e sem importância em sua conhecida obra. Nas palavras de Olavo de Carvalho:

"[...] pesquisas recentes demonstraram que Hegel, que se declarava fiel protestante e nunca foi membro de qualquer grupo esotérico ou sociedade secreta, recebia no entanto dinheiro de agremiações maçônicas interessadas em promover a idéia de uma religião de Estado para se substituir à Igreja cristã (católica ou reformada)"[1].

Ou seja, o filósofo alemão sabia muito bem o que estava fazendo, e ainda que com as melhores intenções não tenha tido a noção exata das consequências daquilo que escrevia, ele se colocara 

"[...] meio às tontas, a serviço da causa que mais nitidamente caracteriza a política do Anticristo sobre a Terra: investir o Estado de autoridade espiritual, restaurar o culto de César, banir deste mundo a liberdade interior que é o reino de Cristo"[1].


Sobre a maneira como o reino de Cristo pode ser impedido de ser alcançado, algo já foi falado em meu post anterior (http://blogjuces.blogspot.com.br/2014/12/ambientalismo-carta-da-terra-e.html), embora lá estivesse relacionado com a maneira como este reino é substituído por uma religião da "Terra". Este culto à "Gaia" e o Estatismo estarão, contudo, num futuro talvez não tão distante, numa simbiose sombria onde o Estado será o grande, tirânico e idolatrado gestor da vida e da atividade humana, e agirá em nome da "Terra" e sob o pretexto de cultuá-la e defendê-la. Esta simbiose, ao que parece, será ela própria a engrenagem mestra do governo mundial vindouro, e a maneira como tal quadro está sendo desenhado pode ser constatada a partir das leituras de [2] e [3].


Sobre a "restauração do Culto à César", contudo, há algo de mais profundo a ser dito. Nos trechos citados acima, Olavo de Carvalho cita o culto ao imperador como oposição frontal ao reino de Cristo provavelmente pelo fato de que o Messias viveu na Judéia, sob o jugo de Roma, e foi crucificado sob acusação de querer ser um novo "rei" para os judeus, fato que inclusive motivou os deboches que sofreu tanto de Herodes quando dos que O crucificaram, pondo sobre a sua cabeça a placa "ESTE É O REI DOS JUDEUS" (Cfr. Lucas 23:8-12 e 23:38). Não é neste momento, porém, que o Estatismo - em oposição ao Deus Criador - pode ser primeiramente  constatado nas Sagradas Escrituras. Suas origens são muito mais longínguas e é bem provável que os maçons patrocinadores de Hegel soubessem disso (ver [5]).


Tudo começou (pra variar...) no Gênesis. No capítulo 10 do primeiro livro de Moisés temos uma primeira indicação disso, onde está escrito (grifos meus):

"E Cuxe [neto de Noé] gerou a Ninrode, o qual começou a ser poderoso na terra. Foi valente caçador diante do Senhor; daí dizer-se: Como Ninrode, poderoso caçador diante do Senhor. O princípio de seu reino foi Babel, Ereque, Acade e Calné, na terra de Sinar. Daquela Terra saiu ele para a Assíria e edificou Nínive, Reobote-Ir e Calá. E, entre Nínive e Calá, a grande cidade de Resém" (Gn. 10:8-12, versão Almeida Revista e Atualizada).

Algo muito importante a ser notado aqui é a citação de que Ninrode foi "valente caçador diante do Senhor". Na Bíblia Judaica Completa (traduzida do hebraico-aramaico-grego para o inglês por David H. Stern, e depois para o português), este mesmo trecho diz que ele foi "um caçador poderoso perante Adonai [Deus]". Note-se que os termos "diante" ou "perante", como se pode constatar a partir do exame de outras versões da Bíblia, não denotam apenas algo como "estar à frente", mas sim algo como estar à frente em oposição, num tom de desafio à Deus. Um exemplo disso pode ser visto na Bíblia Judaica Completa, onde no texto citado de Gênesis, está escrita a palavra "perante"; no livro de Jó, porém, enquanto a versão Almeida diz que os filhos de Deus vieram apresentar-se "perante" Ele, a versão Judaica diz que os filhos de Deus vieram "servir a Adonai" (Jó 1:6). Ou seja, há aqui uma diferença clara entre apresentar-se "para" Deus e apresentar-se "diante" ou "perante" Ele, onde esta segunda denota uma atitude de oposição ou conflito por parte de quem se apresenta. É importante salientar aqui que a versão Judaica está mais próxima dos textos originais do que a Versão Almeida, pois esta foi traduzida a partir de outras versões já traduzidas em outras línguas diferentes.


Sobre este trecho da Bíblia, João Calvino fez a seguinte declaração:

"A expressão "diante do Senhor" me parece declarara que Ninrode tentou se elevar acima da ordem dos homens; assim como os orgulhosos são levados por uma autoconfiança vã, que eles podem olhar para baixo como se estivessem assentados nas nuvens acima dos outros"[4].


Outro relato interessantíssimo sobre Ninrode pode ser encontrado no chamado Livro de Jasar (ou Livro de Jasher, ou ainda Livro dos Justos; disponível na internet). Este livro, embora não conste no cânone bíblico, é citado em Josué 10:13 e em II Samuel 1:18. Diversos trechos do referido livro (a partir do capítulo 7) falam a respeito de Ninrode, como e quando este nasceu, como se tornou forte e poderoso no período pós-diluviano, e como lutou várias guerras e saiu vencedor de todas elas. Cita inclusive que Terah, pai de Abraão, foi um de seus mais estimados subordinados, chegando a ser líder de uma fileira de soldados. O próprio livro cita ainda como Ninrode passou a ser idolatrado, sendo coroado rei sobre TODOS OS HOMENS, que vinham até ele atraídos por sua fama e glória, ofertando-lhe presentes e unido-se a ele. Nesta época, segundo o relato, Ninrode habitava a terra de Sinar (Sinear, Shinar ou Sh'nar).


O texto salienta também que foi Deus quem fez Ninrode prosperar, e que entregou nas mãos dele "todos os seus inimigos". No auge de seu poder, no entanto, Ninrode passou a se rebelear contra Deus, edificando altares de madeira e pedra e curvando-se ante aos tais, tornando-se assim o "homem mais perverso" que havia existido desde o Dilúvio. O trecho a seguir é de particular interesse e nos mostra como o Estatismo em oposição à Deus chegou ao ponto mais crítico:

"E o rei Ninrode reinou seguramente, e toda a terra estava sob seu controle, e toda a terra possuia uma só língua e [falava] palavras de união. E todos os príncipes de Ninrode e seus grandes homens tomaram juntos conselho; Phut, Mitzraim, Cush [Cuxe] e Canaan [Canaã] com suas famílias, e eles disseram uns aos outros: vamos construir nós mesmos uma cidade em uma grande torre, e [com] seu topo alcançando os céus, e nós iremos alcançar fama, tal que nós poderemos reinar sobre todo o mundo, de modo de que o mal de nossos inimigos poderá cessar contra nós, tal que poderemos reinar poderosamente sobre eles, e que nós não nos tornaremos espalhados sobre a terra por conta de suas guerras. E todos eles foram à presença do rei, e disseram ao rei estas palavras, e o rei concordou com eles neste caso, e ele assim o fez. E todas as famílias do conselho constituíram cerca de seiscentos mil homens, e eles foram buscar um extenso pedaço de terra para construir a cidade e a torre, e eles procuraram em toda a terra e não acharam nenhuma como o vale no leste da terra de Sinar; caminharam cerca de dois dias, e eles viajaram e habitaram ali. E começaram a fazer tijolos e queimar fogos para construir a cidade e a torre que eles tinham imaginado concluída. E a construção da torre foi-lhes uma transgressão e um pecado, e eles começaram a construí-la, e enquanto eles estavam construindo contra o Senhor Deus do Céu, imaginaram em seus corações para a guerra contra Ele e para subir ao céu." (Jasher 9:20-25, tradução minha)


Nem é preciso dizer mais nada, o restante da história é bem conhecido e está registrado em Gênesis 11, onde se relata a subsequente confusão das línguas imposta por Deus a fim de parar este projeto infame da Torre de Babel. E a partir de tudo o que foi citado, o Estatismo em oposição ao Deus Criador já pode ser claramente entendido como um culto ao próprio Anticristo, como já havia sido antecipado num dos parágrafos anteriores deste artigo. E o que é mais perigoso e alarmante é o fato de que muitos cristãos estão sendo influenciados por ideologias de esquerda claramente estatizantes, e que no fim conduzem inexoravelmente ao Estatismo a que estamos nos referindo. O Pr. John Weaver faz uma crítica aos cristãos de seu país (EUA) que caberia muito bem no caso do Brasil (onde ele diz "estadismo", entende-se Estatismo no sentido que aqui demos à palavra, e isto pode ser visto na leitura da referência):

"Existe uma religião pró-estadismo neste país. Muitas vezes essa religião pró-estadismo desfila debaixo do guarda-chuva do Cristianismo. Nós nos esquecemos, negligenciamos e nos afastamos tanto da Palavra de Deus que na verdade não conhecemos, nem reconhecemos o Cristianismo bíblico. Sofremos tanta lavagem cerebral e recebemos tanta propaganda ao ponto de nem mesmo reconhecermos que o cidadão comum e o cristão professo comum são nada mais, nada menos, do que bons "pequenos militantes do estadismo". Professamos ser cristãos, expressamos um desejo de agir como cristãos, mas a verdade continua e nossas atitudes e ações traem nossa profissão de fé. Falamos uma coisa e vivemos outra. Professamos a verdade, mas vivemos uma mentira"[4].

Se alguém ainda tem dúvidas quanto à pretenção de se criar um governo mundial inspirado em Ninrode e na Torre de Babel, confira a imagem abaixo e leia a referência [6], além das que já citei.

Em inglês: "Europa: muitas línguas, uma voz".
Dispensa mais legendas...

Acredito já estar claro que no fim de todo o Estatismo está a idolatria - cega ou não - à Ninrode, ao próprio Anticristo vindouro, e seu reino já está sendo preparado pelos seus seguidores, seja pelas vias políticas (ONU, UE, internacionais socialistas como o Foro de São Paulo, etc.) ou pelas vias religiosas (Carta da Terra, seitas ambientalistas). E ainda que haja entre os acadêmicos uma discordância irreconciliável sobre a veracidade dos fatos aqui mencionados, os mesmos são, no fundo, os inspiradores da maior parte das políticas ditas "humanitárias" e da existência de boa parte de órgãos internacionais. Resta agora saber: nos renderemos frente à gigantesca e monstruosa aparência do mal que nos cerca, nos confundiremos e nos perderemos no Estatismo ou procuraremos a Verdade, manifestada na Pessoa de Cristo ratificada por seus ensinamentos e obras? Agora e como sempre foi, a pergunta de Cristo aos seus discípulos é direta: "Quem vocês acham que eu Sou"? O Apóstolo Pedro respondeu corretamente, e a resposta está longe, muito longe do Estatismo.



Referências:
[1] "O Jardim das Aflições". Olavo de Carvalho. Disponível em: http://portalconservador.com/livros/Olavo-de-Carvalho-O-Jardim-das-Aflicoes.pdf
[2] "Poder Global e Religião Universal". Mons. Juan Claudio Sanahuja. Ed. Ecclesiae, 2012.
[3] "Contra o Cristianismo - A ONU e a União Européia como Nova Ideologia". Lucceta Scaraffia e Eugenia Rocella. Ed. Ecclesiae, 2014.
[4] "Estadismo - A Religião de Ninrode". Pr. John Weaver. Disponível em: http://www.espada.eti.br/estadismo.asp
[5] "A Maçonaria É Realmente Uma Religião?". Disponível em: http://www.espada.eti.br/n1144.asp
[6] "Lugares Sinistros: O Parlamento Europeu". Disponível em: http://midiailluminati.blogspot.com.br/2014/03/lugares-sinistros-o-parlamento-europeu.html

Ambientalismo, A Carta da Terra e a Zumbificação Espiritual

Eis o resultado da colonização "ambiental" das mentes e dos espíritos dos cristãos


Já se passaram algumas décadas desde que o mundo - em especial o hemisfério ocidental - começou a ser alertado sobre os perigos decorridos do mal uso dos recursos naturais pelo homem moderno.

Desde então, a chamada "causa ambiental" (ou "causa ambientalista") cresceu, ganhou as proporções planetárias pretendidas inicialmente e foi elevada à status de assunto obrigatório na maioria dos debates políticos (talvez todos) e dos circulos intelectuais mundo afora. Além disso a causa ambiental passou a ser critério influente e decisivo na competitividade das empresas de um modo geral, que devem sempre zelar pelo "desenvolvimento sustentável", do contrário sofrem severas sanções ou punições. O meio artístico também não escapou ileso do "boom" ambientalista e filmes como "Na Natureza Selvagem" de Sean Penn, ou o aclamado "Avatar" de James Cameron são apenas dois exemplos da devoção hollywoodiana à "causa".

Não há dúvidas de que a preservação e a utilização prudente dos recursos naturais são imperativos a serem observados sempre. Nenhum ser humano com um pingo de bom senso (pelo menos os que conheço) argumentaria em contrário. Mas se engana completamente quem pensa que o afã atual pela preservação do planeta seja um expontâneo despertar de lucidez que de repente aplacou toda a população mundial.

Um documento em especial serve para mostrar o quanto tal "comoção" e as campanhas ambientalistas são, pelo menos no meio de seus financiadores e principais divulgadores, dissimulada. Trata-se da chamada Carta da Terra, incorporada pela UNESCO em 2003, mas que começou a ser idealizada no início dos anos 90 por duas organizações, o Conselho da Terra e a Cruz Verde Internacional. Esta última é chefiada por ninguém menos que ex-líder da extinta União Soviétita Mikhail Gorbachev, que em 1997 fez uma declaração que não deixa à ninguém dúvidas sobre as reais intenções contidas no documento, nem deixa dúvidas quanto aos métodos que pretendem usar pôr em prática seu conteúdo:

"O mecanismo que usaremos será a substituição dos Dez Mandamentos pelos princípios contidos na presente Carta ou Constituição da Terra"[1].

Se você não acreditou, pode ler de novo, de novo e de novo...

O prefácio da Carta deixa explícito quais são os princípios que a norteiam (o grifo é meu):

"A humanidade é parte de um vasto universo em evolução. A Terra, nosso lar, está viva como uma comunidade de uma vida única. As forças da natureza fazem da existência uma aventura exisgente e incerta, mas a Terra proveu as condições essenciais para a evolução da vida. A capacidade de resistência da comunidade de vida e o bem-estar da humanidade dependem da preservação da biosfera saudável, com todos os seus sistemas ecológicos, uma rica variedade de plantas e animais, solos férteis, águas puras e ar limpo. O meio ambiente global, com seus recursos finitos, é uma preocupação comum à todos os povos. A proteção da vitalidade, diversidade e beleza da Terra é um dever sagrado"[1].

Qualquer cristão bem avisado já pôde sentir em suas narinas o cheiro de enxofre exalado pelo conteúdo panteísta do trecho acima. Caso alguém ainda não tenha percebido tal conteúdo, o mesmo é endossado e confirmado pelo discurso de Leonardo Boff, militante ambientalista e ex-frade franciscano, proferido diante da Assembléia Geral das Nações Unidas, em 22 de abril de 2009 (os grifos são meus):

"Desde a mais alta ancestralidade, as culturas e religiões sempre têm testemunhado a crença na Terra como Grande Mãe, Magna Mater, Inana e Pachamama. Os povos originários de ontem e de hoje tinham e têm clara consciência de que a Terra é geradora de todos os viventes. Somente um ser vivo pode produzir vida em suas mais diferentes formas. A Terra é, pois, nossa Mãe Universal [...] Não é que sobre a Terra haja vida. A Terra é mesma viva, chamada de Gaia, a deusa grega para significar a Terra viva. Efetivamente, a Terra é Mãe fecunda [...] Para esta tarefa figantesca somos inspirados por um documento precioso: a Carta da Terra. Nasceu da sociedade civil mundial. Em sua elaboração foram envolvidas mais de cem mil pessoas de 46 países. Em 2003 uma resolução da UNESCO apresentou-na como um instrumento educativo e uma referência ética para o desenvolvimento sustentável. Participaram ativamente de sua concepção Mikhail Gorbachev, Maurice Strong, Steven Rockfeller e eu mesmo, entre outros. A Carta entende a Terra como dotada de vida e como nosso Lar Comum. Apresenta pautas concretas que podem salvá-la, cuidando-a com compreensão, com compaixão e com amor, como cabe a toda mãe. Oxalá, um dia, esta Carta da Terra possa ser apresentada, discutida e enriquecida por esta Assembléia geral. Caso seja aprovada, teríamos um documento oficial sobre a dignidade da Terra [...]"[1]

Acredito ter ficado claro nas citações e nos grifos destacados qual é a intenção norteadora dos idealizadores da Carta: estabelecer uma religião global fundamentada no culto universal à Terra, suplantando (como diria Hans Küng) principalmente as religiões ditas "tradicionais" e "fundamentalistas", que apenas ferem a "Grande Mãe". E para quê tal objetivo é estabelecido? Para a legitimação da implantação de um Governo Mundial, a restauração do antigo sonho de Nimrode malogrado pela confusão das línguas imposta por Deus, Javé (YHWH), dificuldade que os apóstolos da "Terra" agora querem superar com a "bênção" de uma outra divindade, Gaia. Só assim, acreditam, alcançarão a "paz mundial".

Caso isso ainda soe como um absurdo, deixo aqui outra fala de Leonardo Boff, para suplantar todas as dúvidas residuais:

"As religiões abraâmicas são as mais violentas, porque acreditam ser portadoras da verdade, como o Papa em Ratisbona. O que é necessário é a espiritualidade, não os credos e as doutrinas"[1].

Para quem já pesquisou sobre a ONU e as doutrinas que motivaram sua fundação, entre as quais a Teosofia de Blavatski, nada disso soa estranho. A substituição das religiões tradicionais, em especial o Cristianismo, por uma religião global que cultua a "Terra" é um objetivo importante na implantação de um governo mundial porque os tais "apóstolos" sabem muito bem que são os aspectos religiosos que dão sentido à vida das pessoas em todos os seus questionamentos e dúvidas, sejam materiais, espirituais e também psicológicos. Eles sabem que não há civilização sem um mito fundador, e que sem ele, qualquer tentativa de criá-la resulta no aparecimento de leviatãs bestiais e sanguinários como o Nazismo e o Comunismo. Um mito fundador, nas palavras de Olavo de Carvalho[2], "não é uma ideologia", não é "um discurso que não compreende a realidade, mas motiva os homens a substituir uma realidade que compreendemos mal por outra da qual não vão compreender nunca". Um mito fundador "é uma verdade inicial compactada que, no desenrolar da história, vai desdobrando o seu sentido e florescendo sob a forma de ciência, de leis, de valores, de civilização", e "constitui-se, em geral, da narrativa simbólica de fatos que efetivamente sucederam, fatos tão essenciais e significativos que acabam por transferir parte do seu padrão de significado para todo o que venha a acontecer em seguida numa determinada área civilizacional". O filósofo ainda completa dizendo que "os esquemas narrativos da literatura superior são os padrões de autocompreensão imaginativa de uma civilização. E os padrões de autocompreensão imaginativa são, por sua vez, os esquemas de ação possíveis". Ou seja, o mito fundador está tanto no fundo de toda a compreensão que uma civilização tem de si mesma quanto de todas as suas possibilidades de ação. Vale lembrar também que os grandes impérios mundiais da antiguidade sempre buscaram a unidade religiosa, utilizando-a como um fator de coesão civilizacional. Para citar exemplos, no Império Romano existia o mito fundador de Rômulo e Remo, e a civilização ocidental tem a Bíblia como mito fundador.

Exatamente por ser a Bíblia o mito fundador do ocidente é que os "apóstolos" de Gaia querem substituí-lo, pois sabem que não há no Cristianismo lugar para o culto à natureza. O Cristianismo é a religião oriunda dos ensinamentos de Cristo, e crê fundamentalmente que Ele é o Deus encarnado, o Logos manifestado em carne, o "verbo vivo", do qual deriva toda a realidade universal física e espiritual. Crê que estamos "dentro" de Deus. Como diria Paulo, "nEle vivemos, nos movemos e existimos". O Deus que é ao mesmo tempo transcendente e imanente não pode ser substituído por absolutamente nada. Isso fica claro, por exemplo, na carta do apóstolo Paulo aos Romanos, quando referindo-se aos cidadãos daquela cidade, diz que

"os atributos invisíveis de Deus, assim como seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas. Tais homens são, por isso, indesculpáveis; porquanto, tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; antes se tornaram nulos em seus próprios raciocínios, obscurecendo-se-lhes o coração insensato. Incultando-se por sábios, tornaram-se loucos, e mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, bem como de aves, quadrúpedes e répteis [...] pois eles mudaram a verdade de Deus em mentira, adorando e servindo a criatura em lugar do Criador, o qual é bendito eternamente. Amém." (Romanos 1:20-23 e 25; o grifo é meu).

No antigo testamento, Isaías profetizou que "Eu sou o Senhor, este é o meu nome; a minha glória, pois, não darei à outrem" (Isaías 42:8). Ambas as citações são obtidas da tradução Almeida Revista e Atualizada da Bíblia.

Tendo ciência disso, se firma como imperativa aos "apóstolos da Terra" a tarefa de destruir o Cristianismo, ou então de esvaziarem-no de todo o seu conteúdo. Parece que optaram pela segunda opção, pois perceberam que a primeira é um mero corolário dela. Para cumprir tal tarefa, entretanto, não partem para o confronto direto, mas valem-se de vários sortilégios e estratagemas, dentre os quais o principal é subverter a linguagem cristã. Alterando (por meio de técnicas de transformação semântica que lembram a construção da novilíngua orwelliana) o sentido de palavras como "amor", "perdão", "união" e "fraternidade" retirando delas o valor e o sentido que lhes foi conferido pela própria experiência da vida de Cristo e da história de seus seguidores, impingem-nas significados vazios com pretenso sentido ético. O resultado disso é nefasto: doutrinas de profundo significado espiritual passam a ser identificadas com um moralismo político oco, com algum valor prático mas sem nenhum valor espiritual.

A partir daí, a colonização de mentes - e consequentemente de espíritos - se torna fácil, e a transformação de cristãos em meros zumbis políticos à serviço da nova ética e propagadores da nova religião se torna mera questão de tempo. A denominação "zumbis" não é por acaso. Estes, na ficção, são amontoados mortos de células que, embora possuam cabeça, esta é desprovida do funcionamento do órgão que os permite alcançarem o nível mais profundo de humanidade e autoconhecimento, e daí buscam qualquer coisa viva (ainda que sob o invólucro de carne, ossos e sangue) que os alimente e os mantenha em pé, numa atração e esfomeamento que denota uma possível lembrança da vida realmente humana que um dia conheceram. No nosso caso, o cristão, o templo do Espírito Santo, quando desprovido dos dispositivos linguísticos que o permitam alcançar por meio da busca sincera e genuína e através de sua cognição e desse mesmo Espírito, seu nível mais humano e ao mesmo tempo mais transcedental, Cristo (a Cabeça da Igreja), transfiguram-se em meros autômatos espirituais, que ao menor sinal de vida plena, expresso ainda que por palavras já esvaziadas de conteúdo, e num lampejo de lembrança da luz que um dia conheceram, apressam-se esfomeadamente a defender qualquer coisa que esteja sob o rótulo de tais palavras, a fim de saciarem seus espíritos semi-mortos. Assim surgem as "Marias do Rosário" ou mesmo os "Hans Küng" da vida, que alegando e acreditando serem cristãos autênticos, defendem qualquer baboseira em nome do "amor", do "perdão", da "união" e da "fraternidade", ainda que em detrimento do Cristianismo que julgam representar. Se autoproclamando detentores e propagadores do verdadeiro evangelho, fazem questão de associarem a si mesmos, de forma raivosa e canina, qualquer coisa que esteja associada à vida plena em Cristo. Já sem vida espiritual, devoram a espiritualidade alheia. Daí a defenderem regimes tirânicos e totalitários desprovido de qualquer valor moral ou espiritual transcendente é um mero pulo.


Eis o belíssimo "paraíso" que os apóstolos da "Terra" prometem e vários cristãos - mesmo de forma subconsciente - estão desejando: um mundo rosáceo, "amoroso", "unido", onde todos são iguais e ninguém pode sequer querer ser diferente, sob pena de ser taxado como um "fundamentalista" nojento e insuportável. Um mundo onde a "Terra" está viva e o ser humano está morto, e não passa de um boneco de barro solto por aí, que em algum momento da "evolução" e por um mero capricho de Gaia se tornou de carne e osso, e deve ser descartado tão logo esta perceba que o tal não lhe serve, ainda que sequer tenha saído do útero que o gera. Eis a "Magna Mater", a gentil mãe, cujo ventre é o gerador universal dos mortos-vivos.


Referências:
[1] "Poder Global e Religião Universal". Mons. Juan Claudio Sanahuja. Ed. Ecclesiae, 2012.
[2] "O Mínimo Que Você Precisa Saber Para Não Ser Um Idiota". Olavo de Carvalho. Ed. Record, 2013; 8ª edição.