sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Natal 2001

Por Olavo de Carvalho. 

“Todo mundo sabe que os dias que antecedem o Natal são os mais angustiantes do ano. Todas as cobiças, todas as frustrações, todas as neuroses familiares, todos os rancores que o ritual do trabalho diário encobria, vêm à tona nessa ocasião, excitados pela corrida às compras, pelo saldo em vermelho, pela disputa de prioridade nas visitas dadas e recebidas, por mil e uma solicitações inatendíveis que nos mostram, mais que qualquer dificuldade rotineira, o que há de intrinsecamente constrangedor e decepcionante na vida humana.
Movidos pelo automatismo dos lugares-comuns, muitos são os que, nesses dias, enfatizam o contraste entre a agitação mundana e um idealizado “espírito de Natal” que, imaginam, deve ter prevalecido em épocas mais doces ou há de prevalecer na sociedade perfeita que sonham criar à sua própria imagem e semelhança.

No entanto, nada expressa melhor o sentido do Natal do que essa angústia, essa inquietação, esse pressentimento sombrio que antecedem o nascimento de Cristo.

É um simbolismo eterno que se repete nos fatos materiais da vida.


Os dias que precedem o Natal são os da matança dos inocentes, da fuga para o deserto, da Sagrada Família a bater em vão de porta em porta, em demanda de um abrigo inexistente.

Um Deus vai nascer. O mundo treme e se apressa, como Herodes, para tentar matá-Lo.

Não poderiam ser dias felizes. São os mais inquietantes do ano. Nem mesmo a Sexta-Feira Santa é tão triste, porque o fato da morte vem com a certeza da Ressurreição. Mas, quando um Deus vai nascer, tudo é incerto. O nascimento de um Deus é a morte de um mundo – de um mundo que não voltará à existência depois de haver-se dissipado no nada. E ainda não se sabe o que virá depois. Tudo aí é possível: as esperanças mais insensatas acotovelam-se aos temores mais alarmantes, na expectativa de algo que não se sabe o que é, mas que será decisivo. É a hora antes da aurora, a hora do lobo: o predador, no lusco-fusco, ainda não sabe se vai caçar ou ser caçado.

O nascimento de um Deus é um anúncio do Juízo Final. Antecipadamente, há choro e ranger de dentes. A humanidade agita-se, tentando em vão fugir do peso de seus pecados. Cada um quer fingir para si mesmo que está bem, que nada teme, que sua conta bancária, sua mesa farta, sua família feliz são um atestado de garantia contra a danação eterna.

Parecendo negar a profecia, a agitação moderna não faz senão obedecê-la e confirmá-la.

Mas eu seria o último a ver na corrida aos presentes apenas umdivertissement no sentido pascaliano, uma fuga ao sentido da vida. Ela é também, nessa hora incerta, a afirmação de uma esperança. O Deus que vai nascer pode não ser um juiz, mas um salvador. Não um castigo, mas um dom. Ninguém o pode garantir antecipadamente. Comprar presentes, no meio da angústia e da correria do mundo, é um ato de confiança na promessa das Escrituras. Sem saber ainda o que vai acontecer, dispomo-nos a celebrá-lo como um dom. Provemo-nos também dos dons que pretendemos ofertar, símbolos miúdos do grande dom divino que esperamos.

Mas a incerteza nem por isso se dissipa.

Mesmo quando surge a estrela, anunciando o nascimento do Salvador, nem todos atinam com o que está se passando. De início, só os sábios e os pastores o compreendem. É na esperança de ser um deles que acorremos às lojas, comprando o ouro, o incenso e a mirra com que mostraremos reconhecer, nos entes queridos a quem presenteamos, a imagem do Menino Deus recém-nascido.

Quer o saibamos ou não, o símbolo primordial molda nossas vidas, reproduzindo-se e multiplicando-se em milhões de lares, por baixo de toda agitação mundana que, parecendo negá-lo, o reafirma soberanamente.

A deusa história, a modernidade, nada pode contra isso. Ela não é senão imagem e semelhança daquilo que nega. Afinal, quê poderia confirmar mais plenamente o nascer do Sol do que o movimento das sombras que deslizam pelo chão?

Qualquer que seja o rumo da História, a Palavra que a moldou antecipadamente não passará.”

quinta-feira, 11 de maio de 2017

O Homem Cu



Autora: Amanda Kelly.
Link (post do Facebook): https://www.facebook.com/amandakelly23/posts/1129205157225030

O novihomem do Ocidente é um cu pensante.

Sim: o status de ser (um) humano parece estar se distanciando com rapidez dos representantes hodiernos da raça.

Nunca se viu tamanha estranheza nos atos, idéias e rumos que o macho tem desde que o mundo é mundo: nem nos mais tensos ciclos metafísicos. Há algo errado. Muito errado.

O novihomem perdeu o senso de autopreservação. Mesmo se considerando tão-somente um primata sofisticado (ou fingindo considerar-se), nem ao menos os instintos mais básicos de um primata o Novo-Homem tem mais. Não pressente mais perigos iminentes, tal qual o comportamento hostil/agressivo de outros indivíduos em situações de ameaça óbvia (como assaltos): a quantidade de reações estranhas ao Ser masculino (pavor histérico, passividade lunar ou surpresa infantil) flagradas em câmeras de segurança parece-me afigurar-se como regra ao invés de exceção. Não pressentindo ameaças à própria existência, quiçá notariam sutilezas das relações humanas que não se transmutam em atos dramáticos, mas permanecem na ordem do velado, subentendido (daí a anedótica "incapacidade" masculina para perceber e sentir): essa incapacidade não me parece inata, mas sim uma mutilação no progresso do ser menino ao tornar-se homem.

Ora, se o Novo-Homem é indefeso e incapaz para si, que o diga para as outras espécies das gentes (mulheres e meninos): já cheguei a ponto de (não poucas vezes) sentir, a uma distância cerimoniosa, dó profunda da inconsciência de si mesmos como machos e até responsável pela "segurança" de homens, conhecidos e desconhecidos meus. Não me alegro nem me orgulho disso.
O novihomem é viciado em prazer. Tal qual um primata com eletrodos ligados à cabeça nas regiões do prazer sexual, o Novo-Homem está condicionado ao prazer físico máximo com desconforto mínimo de tal modo que, para alcançar essa equação torta, é capaz de renegar honra, família e fé. Sem limite, critério, ordem ou ciência de si próprio como criatura, transmuta-se, numa Alquimia Moderna do material humano, em coisa, máquina de trepar, o "amante robótico" dos Mamonas Assassinas. Para entristecer mais ainda as donas que porventura leiam isto, vos digo ainda: os machões que vos enchem os olhos freqüentemente falham nos testes femininos de virilidade (autossuficiência, segurança de si próprio, certeza da própria sexualidade): de tão nebulosos que estão os conceitos e de tão inflamadas as carnes pelo prazer sexual, os marmanjos-machões que vides a urrar pelas redes sociais a própria macheza fraquejam ante o pedido insistente de experiências tipicamente homossexuais (o famoso fio-terra, e, se insistirem mais, cedem também na exclusividade sexual antes só para mulheres). Simplificando: mediante insistência dócil, aceitam experiência gay. Não inventei isso: é tudo fruto de depoimentos e testes (não necessariamente realizados por mim, mas colhidos alhures). Quando os gays dizem que o mundo é gay... nem sempre é exagero.

O Novo-Homem é alegrinho, melindroso, parvo e mofino; submisso, rancoroso e apavorado. Engajado: seja na própria saúde e o tal "bem-estar" (fetiche lingüístico pop que me nauseia), seja em "mudar o mundo", não demonstra mais a independência e liderança que tanto lho marcaram em milênios de civilização, mesmo em projetos simplórios. Vivemos numa era de homens com espírito serviçal.

O Novo-Homem só usa a força física para subjugar a fêmea: somente neste atributo masculino mais que vulgar ele consegue se realizar (incompleto, pobre diabo!). Quando a masculinidade demanda de si durezas como o sacrifício e renúncia, o macho moderno corre e se esconde. Nas épocas de crise como a que vivemos, a virtude genuína masculina praticamente desaparece sob a pusilanimidade e a fraqueza travestida de piedade, e o macho brutal, feroz e tosco faz as vezes de modelo masculino.

A atenção dada ao orifício retal (ativistas que tatuam o cu em protesto contra Trump [??], pichações com as palavras de ordem [??] "cu é lindo" e a inesquecível peça "Macaquinhos") não é somente fruto da intenção revolucionária de chocar: é um sintoma. Com o desespero e angústia metafísica do distanciamento do projeto original de homem, o macho moderno uiva entre a sofreguidão da carne e a angústia do espírito. Esta tensão não está só nas pobres almas presas da mentalidade revolucionária: perpassa quase todos os machos da espécie, se expressando com maior ou menor intensidade. Masculinidade saudável, a contento, há poucas.

 E assim nasceu o homem-cu. O homem-cu é uma massa amorfa, sem poder nas mãos: quando não está conformado a uma atitude bovina perante a vida, lança-se à busca pelo poder da maneira mais porca e velhaca possível.

Que falta ao Novo-Homem?
Sexo? Com certeza não. Nunca houve tanta abundância de estímulo sexual (e ao mesmo tempo tanta insatisfação amorosa).
Sentido da existência? Os índices não desprezíveis de suicídio (além de crescentes, mais prevalentes no sexo masculino) parecem apontar que, sim, a vida parece muito mais insana e sem propósito do que já foi.
O resgate da mulher como musa inspiradora, símbolo de ordem e propósito? Se perguntarem às mulheres, talvez elas respondam que, sim, querem muito ser amadas e fazer um outro homem feliz, mas tudo conspira contra esse propósito.

Se tiverem respostas ou saídas, digam-me, porque eu não sei: só consigo sentir e, mal e porcamente, expressar, mulher que sou. A maioria de vocês sabe mais do que eu, e aprendo com vocês e com meus mestres.
Uma coisa é certa: os homens e as mulheres estão doentes e desesperados, ansiando por alívio, propósito e paz.

O Homem-Cu - Parte II

Link (post do Facebook): https://www.facebook.com/photo.php?fbid=1145537195591826&set=a.401323880013165.1073741827.100004066680103&type=3&theater

O cu tomou o lugar dos olhos como espelho da alma e das mãos como símbolo de poder de transformação do mundo e de toque melindroso do ser amado. Exibir orgulhosamente o bumbum, reivindicar direitos para o cu, fazer dele o mote de causas sociais, tema de teses acadêmicas e de engajamento político-partidário, seguro milionário do bumbum, performances "artísticas" em louvor ao cu, odes e canções louvando a bunda em vez da dona... o cu tornou-se o coração.

Os homens e mulheres estão num grito-silencioso a pedir "Ama-me!", mas desaprenderam essa graça. Na busca desse sentimento doce e sublime (vulnerável tal qual o orvalho, quase sacro), que faz esquecer a dureza e a feiúra e valer a pena o trabalho maçante e as conversas obrigatórias do dia-a-dia, os semi-loucos que são considerados os adultos de hoje estão alcançando os ápices da insatisfação, frustração autofágica e escravidão.

Após a liberação sexual, os homens caíram na mais abjeta e deprimente imanência, e se castigam com burrice e malícia pensando que se locupletam com prazer imerecido e insosso.

A beleza perde o valor rapidamente e é logo macaqueada para padrões não-humanos (tanto animalizado quanto angelizado), suscitando taras sexuais e aberrações do juízo estético. A sutileza dos detalhes que individualizam cada qual passa despercebida aos olhos torpes: tornamo-nos mais e mais carne barata e farta aos olhos maus, vorazes e iníquos. A carne não é mais o invólucro do ser, é o fim em si.
A sensualidade brasileira é a angústia autofágica, como ouroboros a engolir o próprio rabo.
Do Inferno, Marcuse ri-se.

domingo, 9 de abril de 2017

A Morte da Masculinidade - Para Onde Foram Todos os Homens?

Autor: John Stonestreet.
Link do Original: http://www.cnsnews.com/commentary/john-stonestreet/death-masculinity-where-have-all-men-gone



"Para onde foram todos os Homens?" Grande parte das pessoas que fazem essa pergunta está procurando respostas nos lugares mais errados.

Será que estamos no meio de uma crise de masculinidade? Em artigos publicados recentemente, dois escritores cristãos ofereceram respostas muito diferentes a esta pergunta. No periódico "National Review", David French lamenta uma nova estatística que mostra que os homens jovens de hoje são - fisicamente falando - a geração mais fraca na história.

Ele escreve: "Se você é da geração 'milênio' (nascida por volta da virada do século XX para o século XXI), seu pai é mais forte do que você. Na verdade, você pode nem mesmo ser mais forte do que as moças da sua geração. (...) A própria idéia de trabalho manual é estranha para você, e se lhe pedirem para ajudar a construir, por exemplo, uma varanda dos fundos, tal tarefa iria esgotá-lo até o limite da exaustão. Bem vindo à nova realidade pós-masculina."[1]

Respondendo à David French em uma coluna na Religions News Service [2], Chandler Epp argumentou que é equivocada a idéia de que a masculinidade é equivalente a força física.

"As noções cristãs populares de masculinidade", escreve ele, "envergonham, repelem e arruinam muitos meninos e homens jovens que não conseguem cumprir essas normas" e que não gravitam em direção a "comportamentos" típicos "masculinos". Ele conclui que "temos de recuperar a ideia de que a marca de um verdadeiro homem é a sua força moral, não a sua força física." [2]

Ora, eu conheço pessoalmente tanto Chandler Epp quanto David French e tenho muito respeito pelos dois. Na verdade, ambos demonstram que tipo de força moral Chandler fala em sua peça.

Para Chandler é certo que quando a maioria das pessoas pergunta "Onde estão todos os homens?", o que eles querem dizer é algo como: "onde estão todos os lenhadores?" Eles querem saber por que tão poucos homens nos dias de hoje podem realizar proezas de força, construir suas casas próprias ou consertar carros sem a necessidade um mecânico.

Houve um tempo em que esses tipos de habilidades foram cruciais para o cumprimento do mandato da Criação. Expressar a imagem de Deus para a maioria dos homens na história significava ser capaz de caçar, de produzir alimentos agrícolas ou de manter um fogo na lareira. E eu fico grato a cada dia por aqueles que, como o meu pai, que ainda fazem esse tipo de trabalho. Mas a época da força bruta é, de muitas maneiras, passado, e seria o fim do argumento se víssemos com o passar dos anos um aumento correspondente na manifestação de outros tipos de força menos tangíveis como coragem moral, fortaleza, liderança, e uma disposição para o sacrifício.

Mas não estamos vendo. Muito pelo contrário, como uma questão de fato. A maioria dos homens hoje não é apenas fisicamente mais fraca em relação a homens das gerações anteriores. Eles são mais fracos como pessoas: homens atingidos com "síndrome de Peter Pan", nunca deixando a adolescência; "espaços seguros" nos campi universitários que protegem perpetuamente frágeis "vítimas oprimidas" do debate sério; a cultura coletivista e o vício da pornografia substituindo a cavalaria; e a revolução sexual promulgada através da mídia, educação, e agora pela lei de que não existem coisas como macho e fêmea. O que estamos vendo não é uma expressão diferente da masculinidade adaptada às novas realidades culturais. O que estamos vendo é a não-masculinidade total.

A masculinidade real pode ser vista em Greg Thornbury, presidente do King's College em Nova York, que tem um porte corporal que não vejo desde a 8ª série, paletó de pano e óculos de Harry Potter. Ele não é um lenhador, mas como um campeão da teologia e educação cristã em uma cidade que é hostil a ambos, ele é um dos homens mais fortes que eu conheço.

Outro exemplo de masculinidade é Chuck Colson, fuzileiro naval, que antes de ir preso - já convertido à Cristo - era o "homem do machado" e "cara durão" de Nixon. Não era incomum ver Chuck derramando lágrimas devido a verdade do Evangelho, ou diante de uma vida transformada. No entanto, ele tipificava a força masculina como deveria ser.

Um dos Padres da Cristandade, Irineu, disse: "A glória de Deus é o homem vivo". E o homem vivo não se faz de vítima, nem chafurda em um senso de direito. Ele abraça o mandato de criação para "encher a terra e sujeitá-la." Ele é um criador, não um recebedor perpétua.

É este tipo de masculinidade que está desesperadamente escassa nos dias de hoje. É um tipo que não tem nada a ver com o quanto você pode levantar no supino.


[1] No original: “If you’re the average Millennial male, your dad is stronger than you are. In fact, you may not be stronger than the average Millennial female. (...) The very idea of manual labor is alien to you, and even if you were asked to help, say, build a back porch, the task would exhaust you to the point of uselessness. Welcome to the new, post-masculine reality.”  Link original: http://www.nationalreview.com/article/439040/male-physical-decline-masculinity-threatened. (David French escreveu uma continuação desse artigo aqui: http://www.nationalreview.com/corner/439204/course-physical-strength-important-masculinity.)

[2] Link: http://religionnews.com/2016/08/30/how-the-christian-masculinity-movement-is-ruining-men/