sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Natal 2001

Por Olavo de Carvalho. 

“Todo mundo sabe que os dias que antecedem o Natal são os mais angustiantes do ano. Todas as cobiças, todas as frustrações, todas as neuroses familiares, todos os rancores que o ritual do trabalho diário encobria, vêm à tona nessa ocasião, excitados pela corrida às compras, pelo saldo em vermelho, pela disputa de prioridade nas visitas dadas e recebidas, por mil e uma solicitações inatendíveis que nos mostram, mais que qualquer dificuldade rotineira, o que há de intrinsecamente constrangedor e decepcionante na vida humana.
Movidos pelo automatismo dos lugares-comuns, muitos são os que, nesses dias, enfatizam o contraste entre a agitação mundana e um idealizado “espírito de Natal” que, imaginam, deve ter prevalecido em épocas mais doces ou há de prevalecer na sociedade perfeita que sonham criar à sua própria imagem e semelhança.

No entanto, nada expressa melhor o sentido do Natal do que essa angústia, essa inquietação, esse pressentimento sombrio que antecedem o nascimento de Cristo.

É um simbolismo eterno que se repete nos fatos materiais da vida.


Os dias que precedem o Natal são os da matança dos inocentes, da fuga para o deserto, da Sagrada Família a bater em vão de porta em porta, em demanda de um abrigo inexistente.

Um Deus vai nascer. O mundo treme e se apressa, como Herodes, para tentar matá-Lo.

Não poderiam ser dias felizes. São os mais inquietantes do ano. Nem mesmo a Sexta-Feira Santa é tão triste, porque o fato da morte vem com a certeza da Ressurreição. Mas, quando um Deus vai nascer, tudo é incerto. O nascimento de um Deus é a morte de um mundo – de um mundo que não voltará à existência depois de haver-se dissipado no nada. E ainda não se sabe o que virá depois. Tudo aí é possível: as esperanças mais insensatas acotovelam-se aos temores mais alarmantes, na expectativa de algo que não se sabe o que é, mas que será decisivo. É a hora antes da aurora, a hora do lobo: o predador, no lusco-fusco, ainda não sabe se vai caçar ou ser caçado.

O nascimento de um Deus é um anúncio do Juízo Final. Antecipadamente, há choro e ranger de dentes. A humanidade agita-se, tentando em vão fugir do peso de seus pecados. Cada um quer fingir para si mesmo que está bem, que nada teme, que sua conta bancária, sua mesa farta, sua família feliz são um atestado de garantia contra a danação eterna.

Parecendo negar a profecia, a agitação moderna não faz senão obedecê-la e confirmá-la.

Mas eu seria o último a ver na corrida aos presentes apenas umdivertissement no sentido pascaliano, uma fuga ao sentido da vida. Ela é também, nessa hora incerta, a afirmação de uma esperança. O Deus que vai nascer pode não ser um juiz, mas um salvador. Não um castigo, mas um dom. Ninguém o pode garantir antecipadamente. Comprar presentes, no meio da angústia e da correria do mundo, é um ato de confiança na promessa das Escrituras. Sem saber ainda o que vai acontecer, dispomo-nos a celebrá-lo como um dom. Provemo-nos também dos dons que pretendemos ofertar, símbolos miúdos do grande dom divino que esperamos.

Mas a incerteza nem por isso se dissipa.

Mesmo quando surge a estrela, anunciando o nascimento do Salvador, nem todos atinam com o que está se passando. De início, só os sábios e os pastores o compreendem. É na esperança de ser um deles que acorremos às lojas, comprando o ouro, o incenso e a mirra com que mostraremos reconhecer, nos entes queridos a quem presenteamos, a imagem do Menino Deus recém-nascido.

Quer o saibamos ou não, o símbolo primordial molda nossas vidas, reproduzindo-se e multiplicando-se em milhões de lares, por baixo de toda agitação mundana que, parecendo negá-lo, o reafirma soberanamente.

A deusa história, a modernidade, nada pode contra isso. Ela não é senão imagem e semelhança daquilo que nega. Afinal, quê poderia confirmar mais plenamente o nascer do Sol do que o movimento das sombras que deslizam pelo chão?

Qualquer que seja o rumo da História, a Palavra que a moldou antecipadamente não passará.”

quinta-feira, 11 de maio de 2017

O Homem Cu



Autora: Amanda Kelly.
Link (post do Facebook): https://www.facebook.com/amandakelly23/posts/1129205157225030

O novihomem do Ocidente é um cu pensante.

Sim: o status de ser (um) humano parece estar se distanciando com rapidez dos representantes hodiernos da raça.

Nunca se viu tamanha estranheza nos atos, idéias e rumos que o macho tem desde que o mundo é mundo: nem nos mais tensos ciclos metafísicos. Há algo errado. Muito errado.

O novihomem perdeu o senso de autopreservação. Mesmo se considerando tão-somente um primata sofisticado (ou fingindo considerar-se), nem ao menos os instintos mais básicos de um primata o Novo-Homem tem mais. Não pressente mais perigos iminentes, tal qual o comportamento hostil/agressivo de outros indivíduos em situações de ameaça óbvia (como assaltos): a quantidade de reações estranhas ao Ser masculino (pavor histérico, passividade lunar ou surpresa infantil) flagradas em câmeras de segurança parece-me afigurar-se como regra ao invés de exceção. Não pressentindo ameaças à própria existência, quiçá notariam sutilezas das relações humanas que não se transmutam em atos dramáticos, mas permanecem na ordem do velado, subentendido (daí a anedótica "incapacidade" masculina para perceber e sentir): essa incapacidade não me parece inata, mas sim uma mutilação no progresso do ser menino ao tornar-se homem.

Ora, se o Novo-Homem é indefeso e incapaz para si, que o diga para as outras espécies das gentes (mulheres e meninos): já cheguei a ponto de (não poucas vezes) sentir, a uma distância cerimoniosa, dó profunda da inconsciência de si mesmos como machos e até responsável pela "segurança" de homens, conhecidos e desconhecidos meus. Não me alegro nem me orgulho disso.
O novihomem é viciado em prazer. Tal qual um primata com eletrodos ligados à cabeça nas regiões do prazer sexual, o Novo-Homem está condicionado ao prazer físico máximo com desconforto mínimo de tal modo que, para alcançar essa equação torta, é capaz de renegar honra, família e fé. Sem limite, critério, ordem ou ciência de si próprio como criatura, transmuta-se, numa Alquimia Moderna do material humano, em coisa, máquina de trepar, o "amante robótico" dos Mamonas Assassinas. Para entristecer mais ainda as donas que porventura leiam isto, vos digo ainda: os machões que vos enchem os olhos freqüentemente falham nos testes femininos de virilidade (autossuficiência, segurança de si próprio, certeza da própria sexualidade): de tão nebulosos que estão os conceitos e de tão inflamadas as carnes pelo prazer sexual, os marmanjos-machões que vides a urrar pelas redes sociais a própria macheza fraquejam ante o pedido insistente de experiências tipicamente homossexuais (o famoso fio-terra, e, se insistirem mais, cedem também na exclusividade sexual antes só para mulheres). Simplificando: mediante insistência dócil, aceitam experiência gay. Não inventei isso: é tudo fruto de depoimentos e testes (não necessariamente realizados por mim, mas colhidos alhures). Quando os gays dizem que o mundo é gay... nem sempre é exagero.

O Novo-Homem é alegrinho, melindroso, parvo e mofino; submisso, rancoroso e apavorado. Engajado: seja na própria saúde e o tal "bem-estar" (fetiche lingüístico pop que me nauseia), seja em "mudar o mundo", não demonstra mais a independência e liderança que tanto lho marcaram em milênios de civilização, mesmo em projetos simplórios. Vivemos numa era de homens com espírito serviçal.

O Novo-Homem só usa a força física para subjugar a fêmea: somente neste atributo masculino mais que vulgar ele consegue se realizar (incompleto, pobre diabo!). Quando a masculinidade demanda de si durezas como o sacrifício e renúncia, o macho moderno corre e se esconde. Nas épocas de crise como a que vivemos, a virtude genuína masculina praticamente desaparece sob a pusilanimidade e a fraqueza travestida de piedade, e o macho brutal, feroz e tosco faz as vezes de modelo masculino.

A atenção dada ao orifício retal (ativistas que tatuam o cu em protesto contra Trump [??], pichações com as palavras de ordem [??] "cu é lindo" e a inesquecível peça "Macaquinhos") não é somente fruto da intenção revolucionária de chocar: é um sintoma. Com o desespero e angústia metafísica do distanciamento do projeto original de homem, o macho moderno uiva entre a sofreguidão da carne e a angústia do espírito. Esta tensão não está só nas pobres almas presas da mentalidade revolucionária: perpassa quase todos os machos da espécie, se expressando com maior ou menor intensidade. Masculinidade saudável, a contento, há poucas.

 E assim nasceu o homem-cu. O homem-cu é uma massa amorfa, sem poder nas mãos: quando não está conformado a uma atitude bovina perante a vida, lança-se à busca pelo poder da maneira mais porca e velhaca possível.

Que falta ao Novo-Homem?
Sexo? Com certeza não. Nunca houve tanta abundância de estímulo sexual (e ao mesmo tempo tanta insatisfação amorosa).
Sentido da existência? Os índices não desprezíveis de suicídio (além de crescentes, mais prevalentes no sexo masculino) parecem apontar que, sim, a vida parece muito mais insana e sem propósito do que já foi.
O resgate da mulher como musa inspiradora, símbolo de ordem e propósito? Se perguntarem às mulheres, talvez elas respondam que, sim, querem muito ser amadas e fazer um outro homem feliz, mas tudo conspira contra esse propósito.

Se tiverem respostas ou saídas, digam-me, porque eu não sei: só consigo sentir e, mal e porcamente, expressar, mulher que sou. A maioria de vocês sabe mais do que eu, e aprendo com vocês e com meus mestres.
Uma coisa é certa: os homens e as mulheres estão doentes e desesperados, ansiando por alívio, propósito e paz.

O Homem-Cu - Parte II

Link (post do Facebook): https://www.facebook.com/photo.php?fbid=1145537195591826&set=a.401323880013165.1073741827.100004066680103&type=3&theater

O cu tomou o lugar dos olhos como espelho da alma e das mãos como símbolo de poder de transformação do mundo e de toque melindroso do ser amado. Exibir orgulhosamente o bumbum, reivindicar direitos para o cu, fazer dele o mote de causas sociais, tema de teses acadêmicas e de engajamento político-partidário, seguro milionário do bumbum, performances "artísticas" em louvor ao cu, odes e canções louvando a bunda em vez da dona... o cu tornou-se o coração.

Os homens e mulheres estão num grito-silencioso a pedir "Ama-me!", mas desaprenderam essa graça. Na busca desse sentimento doce e sublime (vulnerável tal qual o orvalho, quase sacro), que faz esquecer a dureza e a feiúra e valer a pena o trabalho maçante e as conversas obrigatórias do dia-a-dia, os semi-loucos que são considerados os adultos de hoje estão alcançando os ápices da insatisfação, frustração autofágica e escravidão.

Após a liberação sexual, os homens caíram na mais abjeta e deprimente imanência, e se castigam com burrice e malícia pensando que se locupletam com prazer imerecido e insosso.

A beleza perde o valor rapidamente e é logo macaqueada para padrões não-humanos (tanto animalizado quanto angelizado), suscitando taras sexuais e aberrações do juízo estético. A sutileza dos detalhes que individualizam cada qual passa despercebida aos olhos torpes: tornamo-nos mais e mais carne barata e farta aos olhos maus, vorazes e iníquos. A carne não é mais o invólucro do ser, é o fim em si.
A sensualidade brasileira é a angústia autofágica, como ouroboros a engolir o próprio rabo.
Do Inferno, Marcuse ri-se.

domingo, 9 de abril de 2017

A Morte da Masculinidade - Para Onde Foram Todos os Homens?

Autor: John Stonestreet.
Link do Original: http://www.cnsnews.com/commentary/john-stonestreet/death-masculinity-where-have-all-men-gone



"Para onde foram todos os Homens?" Grande parte das pessoas que fazem essa pergunta está procurando respostas nos lugares mais errados.

Será que estamos no meio de uma crise de masculinidade? Em artigos publicados recentemente, dois escritores cristãos ofereceram respostas muito diferentes a esta pergunta. No periódico "National Review", David French lamenta uma nova estatística que mostra que os homens jovens de hoje são - fisicamente falando - a geração mais fraca na história.

Ele escreve: "Se você é da geração 'milênio' (nascida por volta da virada do século XX para o século XXI), seu pai é mais forte do que você. Na verdade, você pode nem mesmo ser mais forte do que as moças da sua geração. (...) A própria idéia de trabalho manual é estranha para você, e se lhe pedirem para ajudar a construir, por exemplo, uma varanda dos fundos, tal tarefa iria esgotá-lo até o limite da exaustão. Bem vindo à nova realidade pós-masculina."[1]

Respondendo à David French em uma coluna na Religions News Service [2], Chandler Epp argumentou que é equivocada a idéia de que a masculinidade é equivalente a força física.

"As noções cristãs populares de masculinidade", escreve ele, "envergonham, repelem e arruinam muitos meninos e homens jovens que não conseguem cumprir essas normas" e que não gravitam em direção a "comportamentos" típicos "masculinos". Ele conclui que "temos de recuperar a ideia de que a marca de um verdadeiro homem é a sua força moral, não a sua força física." [2]

Ora, eu conheço pessoalmente tanto Chandler Epp quanto David French e tenho muito respeito pelos dois. Na verdade, ambos demonstram que tipo de força moral Chandler fala em sua peça.

Para Chandler é certo que quando a maioria das pessoas pergunta "Onde estão todos os homens?", o que eles querem dizer é algo como: "onde estão todos os lenhadores?" Eles querem saber por que tão poucos homens nos dias de hoje podem realizar proezas de força, construir suas casas próprias ou consertar carros sem a necessidade um mecânico.

Houve um tempo em que esses tipos de habilidades foram cruciais para o cumprimento do mandato da Criação. Expressar a imagem de Deus para a maioria dos homens na história significava ser capaz de caçar, de produzir alimentos agrícolas ou de manter um fogo na lareira. E eu fico grato a cada dia por aqueles que, como o meu pai, que ainda fazem esse tipo de trabalho. Mas a época da força bruta é, de muitas maneiras, passado, e seria o fim do argumento se víssemos com o passar dos anos um aumento correspondente na manifestação de outros tipos de força menos tangíveis como coragem moral, fortaleza, liderança, e uma disposição para o sacrifício.

Mas não estamos vendo. Muito pelo contrário, como uma questão de fato. A maioria dos homens hoje não é apenas fisicamente mais fraca em relação a homens das gerações anteriores. Eles são mais fracos como pessoas: homens atingidos com "síndrome de Peter Pan", nunca deixando a adolescência; "espaços seguros" nos campi universitários que protegem perpetuamente frágeis "vítimas oprimidas" do debate sério; a cultura coletivista e o vício da pornografia substituindo a cavalaria; e a revolução sexual promulgada através da mídia, educação, e agora pela lei de que não existem coisas como macho e fêmea. O que estamos vendo não é uma expressão diferente da masculinidade adaptada às novas realidades culturais. O que estamos vendo é a não-masculinidade total.

A masculinidade real pode ser vista em Greg Thornbury, presidente do King's College em Nova York, que tem um porte corporal que não vejo desde a 8ª série, paletó de pano e óculos de Harry Potter. Ele não é um lenhador, mas como um campeão da teologia e educação cristã em uma cidade que é hostil a ambos, ele é um dos homens mais fortes que eu conheço.

Outro exemplo de masculinidade é Chuck Colson, fuzileiro naval, que antes de ir preso - já convertido à Cristo - era o "homem do machado" e "cara durão" de Nixon. Não era incomum ver Chuck derramando lágrimas devido a verdade do Evangelho, ou diante de uma vida transformada. No entanto, ele tipificava a força masculina como deveria ser.

Um dos Padres da Cristandade, Irineu, disse: "A glória de Deus é o homem vivo". E o homem vivo não se faz de vítima, nem chafurda em um senso de direito. Ele abraça o mandato de criação para "encher a terra e sujeitá-la." Ele é um criador, não um recebedor perpétua.

É este tipo de masculinidade que está desesperadamente escassa nos dias de hoje. É um tipo que não tem nada a ver com o quanto você pode levantar no supino.


[1] No original: “If you’re the average Millennial male, your dad is stronger than you are. In fact, you may not be stronger than the average Millennial female. (...) The very idea of manual labor is alien to you, and even if you were asked to help, say, build a back porch, the task would exhaust you to the point of uselessness. Welcome to the new, post-masculine reality.”  Link original: http://www.nationalreview.com/article/439040/male-physical-decline-masculinity-threatened. (David French escreveu uma continuação desse artigo aqui: http://www.nationalreview.com/corner/439204/course-physical-strength-important-masculinity.)

[2] Link: http://religionnews.com/2016/08/30/how-the-christian-masculinity-movement-is-ruining-men/

domingo, 20 de setembro de 2015

Estatismo, Mas Pode Chamar de Ninrodismo ou de Idolatria Mesmo...

Ninrode: idolatrado até mesmo por quem
nem ouviu falar dele.


O Estatismo parece ser uma religião no Brasil. Embora a situação não pareça ser muito diferente em outros países, o caso brasileiro parece ser de uma profundidade que espanta até mesmo quem sempre viveu aqui. Evidências disso são, por exemplo, as promessas feitas em campanhas eleitorais comprometendo-se a criar um "Estado forte" ou um "Estado eficiente", as quais parecem seduzir os ouvidos inocentes com um poder quase mágico. As pessoas bradam chavões do tipo "eu tenho direito à segurança", "direito à saúde", "direito à educação", crendo sem vacilar que é dever do todo-poderoso Estado suprí-las por completo. As pessoas comuns, ao que parece, crêem que por meio do Estado serão realizados plenamente os ideais de justiça, igualdade, fraternidade, união e solidariedade, e quando perguntadas sobre a maneira pela qual o Estado atingiria essa perfeição romântica, as resposas variam desde o inocente "não sei" até manifestações quase cínicas em favor de um Estado totalitário, que controla a vida de seus cidadãos do berçario da maternidade ao túmulo.


Antes de iniciar minhas colocações, entretanto, devo salientar que não se deve confundir o Estatismo com a crença na utilidade do estado. O primeiro se refere à crença implícita (ainda que desmentida no nível consciente) da infalibilidade do Estado; e se expressa naquela atitude mental comum nos dias atuais que consiste em querer depender do estado para tudo. O segundo é a simples convicção de que o Estado tem sim um papel importante na consolidação e manutenção das instituições, das liberdades, da cultura e da identidade íntima de uma nação.



Essa crença estatista (que já foi mencionada neste blog - http://blogjuces.blogspot.com.br/2014/12/estatismo-uma-questao-de-fe.html), que vê o Estado como um plenipotenciário juíz e provedor de beneces encontra um paralelo espantoso nas palavras de Hegel, quando disse que o Estado é "deus andando na Terra". E essa não é a única ocasião em que o autor da "Filosofia da História" se refere ao Estado nesse tom de reverência solene, pois esta frase não foi apenas um insight passageiro e sem importância em sua conhecida obra. Nas palavras de Olavo de Carvalho:

"[...] pesquisas recentes demonstraram que Hegel, que se declarava fiel protestante e nunca foi membro de qualquer grupo esotérico ou sociedade secreta, recebia no entanto dinheiro de agremiações maçônicas interessadas em promover a idéia de uma religião de Estado para se substituir à Igreja cristã (católica ou reformada)"[1].

Ou seja, o filósofo alemão sabia muito bem o que estava fazendo, e ainda que com as melhores intenções não tenha tido a noção exata das consequências daquilo que escrevia, ele se colocara 

"[...] meio às tontas, a serviço da causa que mais nitidamente caracteriza a política do Anticristo sobre a Terra: investir o Estado de autoridade espiritual, restaurar o culto de César, banir deste mundo a liberdade interior que é o reino de Cristo"[1].


Sobre a maneira como o reino de Cristo pode ser impedido de ser alcançado, algo já foi falado em meu post anterior (http://blogjuces.blogspot.com.br/2014/12/ambientalismo-carta-da-terra-e.html), embora lá estivesse relacionado com a maneira como este reino é substituído por uma religião da "Terra". Este culto à "Gaia" e o Estatismo estarão, contudo, num futuro talvez não tão distante, numa simbiose sombria onde o Estado será o grande, tirânico e idolatrado gestor da vida e da atividade humana, e agirá em nome da "Terra" e sob o pretexto de cultuá-la e defendê-la. Esta simbiose, ao que parece, será ela própria a engrenagem mestra do governo mundial vindouro, e a maneira como tal quadro está sendo desenhado pode ser constatada a partir das leituras de [2] e [3].


Sobre a "restauração do Culto à César", contudo, há algo de mais profundo a ser dito. Nos trechos citados acima, Olavo de Carvalho cita o culto ao imperador como oposição frontal ao reino de Cristo provavelmente pelo fato de que o Messias viveu na Judéia, sob o jugo de Roma, e foi crucificado sob acusação de querer ser um novo "rei" para os judeus, fato que inclusive motivou os deboches que sofreu tanto de Herodes quando dos que O crucificaram, pondo sobre a sua cabeça a placa "ESTE É O REI DOS JUDEUS" (Cfr. Lucas 23:8-12 e 23:38). Não é neste momento, porém, que o Estatismo - em oposição ao Deus Criador - pode ser primeiramente  constatado nas Sagradas Escrituras. Suas origens são muito mais longínguas e é bem provável que os maçons patrocinadores de Hegel soubessem disso (ver [5]).


Tudo começou (pra variar...) no Gênesis. No capítulo 10 do primeiro livro de Moisés temos uma primeira indicação disso, onde está escrito (grifos meus):

"E Cuxe [neto de Noé] gerou a Ninrode, o qual começou a ser poderoso na terra. Foi valente caçador diante do Senhor; daí dizer-se: Como Ninrode, poderoso caçador diante do Senhor. O princípio de seu reino foi Babel, Ereque, Acade e Calné, na terra de Sinar. Daquela Terra saiu ele para a Assíria e edificou Nínive, Reobote-Ir e Calá. E, entre Nínive e Calá, a grande cidade de Resém" (Gn. 10:8-12, versão Almeida Revista e Atualizada).

Algo muito importante a ser notado aqui é a citação de que Ninrode foi "valente caçador diante do Senhor". Na Bíblia Judaica Completa (traduzida do hebraico-aramaico-grego para o inglês por David H. Stern, e depois para o português), este mesmo trecho diz que ele foi "um caçador poderoso perante Adonai [Deus]". Note-se que os termos "diante" ou "perante", como se pode constatar a partir do exame de outras versões da Bíblia, não denotam apenas algo como "estar à frente", mas sim algo como estar à frente em oposição, num tom de desafio à Deus. Um exemplo disso pode ser visto na Bíblia Judaica Completa, onde no texto citado de Gênesis, está escrita a palavra "perante"; no livro de Jó, porém, enquanto a versão Almeida diz que os filhos de Deus vieram apresentar-se "perante" Ele, a versão Judaica diz que os filhos de Deus vieram "servir a Adonai" (Jó 1:6). Ou seja, há aqui uma diferença clara entre apresentar-se "para" Deus e apresentar-se "diante" ou "perante" Ele, onde esta segunda denota uma atitude de oposição ou conflito por parte de quem se apresenta. É importante salientar aqui que a versão Judaica está mais próxima dos textos originais do que a Versão Almeida, pois esta foi traduzida a partir de outras versões já traduzidas em outras línguas diferentes.


Sobre este trecho da Bíblia, João Calvino fez a seguinte declaração:

"A expressão "diante do Senhor" me parece declarara que Ninrode tentou se elevar acima da ordem dos homens; assim como os orgulhosos são levados por uma autoconfiança vã, que eles podem olhar para baixo como se estivessem assentados nas nuvens acima dos outros"[4].


Outro relato interessantíssimo sobre Ninrode pode ser encontrado no chamado Livro de Jasar (ou Livro de Jasher, ou ainda Livro dos Justos; disponível na internet). Este livro, embora não conste no cânone bíblico, é citado em Josué 10:13 e em II Samuel 1:18. Diversos trechos do referido livro (a partir do capítulo 7) falam a respeito de Ninrode, como e quando este nasceu, como se tornou forte e poderoso no período pós-diluviano, e como lutou várias guerras e saiu vencedor de todas elas. Cita inclusive que Terah, pai de Abraão, foi um de seus mais estimados subordinados, chegando a ser líder de uma fileira de soldados. O próprio livro cita ainda como Ninrode passou a ser idolatrado, sendo coroado rei sobre TODOS OS HOMENS, que vinham até ele atraídos por sua fama e glória, ofertando-lhe presentes e unido-se a ele. Nesta época, segundo o relato, Ninrode habitava a terra de Sinar (Sinear, Shinar ou Sh'nar).


O texto salienta também que foi Deus quem fez Ninrode prosperar, e que entregou nas mãos dele "todos os seus inimigos". No auge de seu poder, no entanto, Ninrode passou a se rebelear contra Deus, edificando altares de madeira e pedra e curvando-se ante aos tais, tornando-se assim o "homem mais perverso" que havia existido desde o Dilúvio. O trecho a seguir é de particular interesse e nos mostra como o Estatismo em oposição à Deus chegou ao ponto mais crítico:

"E o rei Ninrode reinou seguramente, e toda a terra estava sob seu controle, e toda a terra possuia uma só língua e [falava] palavras de união. E todos os príncipes de Ninrode e seus grandes homens tomaram juntos conselho; Phut, Mitzraim, Cush [Cuxe] e Canaan [Canaã] com suas famílias, e eles disseram uns aos outros: vamos construir nós mesmos uma cidade em uma grande torre, e [com] seu topo alcançando os céus, e nós iremos alcançar fama, tal que nós poderemos reinar sobre todo o mundo, de modo de que o mal de nossos inimigos poderá cessar contra nós, tal que poderemos reinar poderosamente sobre eles, e que nós não nos tornaremos espalhados sobre a terra por conta de suas guerras. E todos eles foram à presença do rei, e disseram ao rei estas palavras, e o rei concordou com eles neste caso, e ele assim o fez. E todas as famílias do conselho constituíram cerca de seiscentos mil homens, e eles foram buscar um extenso pedaço de terra para construir a cidade e a torre, e eles procuraram em toda a terra e não acharam nenhuma como o vale no leste da terra de Sinar; caminharam cerca de dois dias, e eles viajaram e habitaram ali. E começaram a fazer tijolos e queimar fogos para construir a cidade e a torre que eles tinham imaginado concluída. E a construção da torre foi-lhes uma transgressão e um pecado, e eles começaram a construí-la, e enquanto eles estavam construindo contra o Senhor Deus do Céu, imaginaram em seus corações para a guerra contra Ele e para subir ao céu." (Jasher 9:20-25, tradução minha)


Nem é preciso dizer mais nada, o restante da história é bem conhecido e está registrado em Gênesis 11, onde se relata a subsequente confusão das línguas imposta por Deus a fim de parar este projeto infame da Torre de Babel. E a partir de tudo o que foi citado, o Estatismo em oposição ao Deus Criador já pode ser claramente entendido como um culto ao próprio Anticristo, como já havia sido antecipado num dos parágrafos anteriores deste artigo. E o que é mais perigoso e alarmante é o fato de que muitos cristãos estão sendo influenciados por ideologias de esquerda claramente estatizantes, e que no fim conduzem inexoravelmente ao Estatismo a que estamos nos referindo. O Pr. John Weaver faz uma crítica aos cristãos de seu país (EUA) que caberia muito bem no caso do Brasil (onde ele diz "estadismo", entende-se Estatismo no sentido que aqui demos à palavra, e isto pode ser visto na leitura da referência):

"Existe uma religião pró-estadismo neste país. Muitas vezes essa religião pró-estadismo desfila debaixo do guarda-chuva do Cristianismo. Nós nos esquecemos, negligenciamos e nos afastamos tanto da Palavra de Deus que na verdade não conhecemos, nem reconhecemos o Cristianismo bíblico. Sofremos tanta lavagem cerebral e recebemos tanta propaganda ao ponto de nem mesmo reconhecermos que o cidadão comum e o cristão professo comum são nada mais, nada menos, do que bons "pequenos militantes do estadismo". Professamos ser cristãos, expressamos um desejo de agir como cristãos, mas a verdade continua e nossas atitudes e ações traem nossa profissão de fé. Falamos uma coisa e vivemos outra. Professamos a verdade, mas vivemos uma mentira"[4].

Se alguém ainda tem dúvidas quanto à pretenção de se criar um governo mundial inspirado em Ninrode e na Torre de Babel, confira a imagem abaixo e leia a referência [6], além das que já citei.

Em inglês: "Europa: muitas línguas, uma voz".
Dispensa mais legendas...

Acredito já estar claro que no fim de todo o Estatismo está a idolatria - cega ou não - à Ninrode, ao próprio Anticristo vindouro, e seu reino já está sendo preparado pelos seus seguidores, seja pelas vias políticas (ONU, UE, internacionais socialistas como o Foro de São Paulo, etc.) ou pelas vias religiosas (Carta da Terra, seitas ambientalistas). E ainda que haja entre os acadêmicos uma discordância irreconciliável sobre a veracidade dos fatos aqui mencionados, os mesmos são, no fundo, os inspiradores da maior parte das políticas ditas "humanitárias" e da existência de boa parte de órgãos internacionais. Resta agora saber: nos renderemos frente à gigantesca e monstruosa aparência do mal que nos cerca, nos confundiremos e nos perderemos no Estatismo ou procuraremos a Verdade, manifestada na Pessoa de Cristo ratificada por seus ensinamentos e obras? Agora e como sempre foi, a pergunta de Cristo aos seus discípulos é direta: "Quem vocês acham que eu Sou"? O Apóstolo Pedro respondeu corretamente, e a resposta está longe, muito longe do Estatismo.



Referências:
[1] "O Jardim das Aflições". Olavo de Carvalho. Disponível em: http://portalconservador.com/livros/Olavo-de-Carvalho-O-Jardim-das-Aflicoes.pdf
[2] "Poder Global e Religião Universal". Mons. Juan Claudio Sanahuja. Ed. Ecclesiae, 2012.
[3] "Contra o Cristianismo - A ONU e a União Européia como Nova Ideologia". Lucceta Scaraffia e Eugenia Rocella. Ed. Ecclesiae, 2014.
[4] "Estadismo - A Religião de Ninrode". Pr. John Weaver. Disponível em: http://www.espada.eti.br/estadismo.asp
[5] "A Maçonaria É Realmente Uma Religião?". Disponível em: http://www.espada.eti.br/n1144.asp
[6] "Lugares Sinistros: O Parlamento Europeu". Disponível em: http://midiailluminati.blogspot.com.br/2014/03/lugares-sinistros-o-parlamento-europeu.html

Ambientalismo, A Carta da Terra e a Zumbificação Espiritual

Eis o resultado da colonização "ambiental" das mentes e dos espíritos dos cristãos


Já se passaram algumas décadas desde que o mundo - em especial o hemisfério ocidental - começou a ser alertado sobre os perigos decorridos do mal uso dos recursos naturais pelo homem moderno.

Desde então, a chamada "causa ambiental" (ou "causa ambientalista") cresceu, ganhou as proporções planetárias pretendidas inicialmente e foi elevada à status de assunto obrigatório na maioria dos debates políticos (talvez todos) e dos circulos intelectuais mundo afora. Além disso a causa ambiental passou a ser critério influente e decisivo na competitividade das empresas de um modo geral, que devem sempre zelar pelo "desenvolvimento sustentável", do contrário sofrem severas sanções ou punições. O meio artístico também não escapou ileso do "boom" ambientalista e filmes como "Na Natureza Selvagem" de Sean Penn, ou o aclamado "Avatar" de James Cameron são apenas dois exemplos da devoção hollywoodiana à "causa".

Não há dúvidas de que a preservação e a utilização prudente dos recursos naturais são imperativos a serem observados sempre. Nenhum ser humano com um pingo de bom senso (pelo menos os que conheço) argumentaria em contrário. Mas se engana completamente quem pensa que o afã atual pela preservação do planeta seja um expontâneo despertar de lucidez que de repente aplacou toda a população mundial.

Um documento em especial serve para mostrar o quanto tal "comoção" e as campanhas ambientalistas são, pelo menos no meio de seus financiadores e principais divulgadores, dissimulada. Trata-se da chamada Carta da Terra, incorporada pela UNESCO em 2003, mas que começou a ser idealizada no início dos anos 90 por duas organizações, o Conselho da Terra e a Cruz Verde Internacional. Esta última é chefiada por ninguém menos que ex-líder da extinta União Soviétita Mikhail Gorbachev, que em 1997 fez uma declaração que não deixa à ninguém dúvidas sobre as reais intenções contidas no documento, nem deixa dúvidas quanto aos métodos que pretendem usar pôr em prática seu conteúdo:

"O mecanismo que usaremos será a substituição dos Dez Mandamentos pelos princípios contidos na presente Carta ou Constituição da Terra"[1].

Se você não acreditou, pode ler de novo, de novo e de novo...

O prefácio da Carta deixa explícito quais são os princípios que a norteiam (o grifo é meu):

"A humanidade é parte de um vasto universo em evolução. A Terra, nosso lar, está viva como uma comunidade de uma vida única. As forças da natureza fazem da existência uma aventura exisgente e incerta, mas a Terra proveu as condições essenciais para a evolução da vida. A capacidade de resistência da comunidade de vida e o bem-estar da humanidade dependem da preservação da biosfera saudável, com todos os seus sistemas ecológicos, uma rica variedade de plantas e animais, solos férteis, águas puras e ar limpo. O meio ambiente global, com seus recursos finitos, é uma preocupação comum à todos os povos. A proteção da vitalidade, diversidade e beleza da Terra é um dever sagrado"[1].

Qualquer cristão bem avisado já pôde sentir em suas narinas o cheiro de enxofre exalado pelo conteúdo panteísta do trecho acima. Caso alguém ainda não tenha percebido tal conteúdo, o mesmo é endossado e confirmado pelo discurso de Leonardo Boff, militante ambientalista e ex-frade franciscano, proferido diante da Assembléia Geral das Nações Unidas, em 22 de abril de 2009 (os grifos são meus):

"Desde a mais alta ancestralidade, as culturas e religiões sempre têm testemunhado a crença na Terra como Grande Mãe, Magna Mater, Inana e Pachamama. Os povos originários de ontem e de hoje tinham e têm clara consciência de que a Terra é geradora de todos os viventes. Somente um ser vivo pode produzir vida em suas mais diferentes formas. A Terra é, pois, nossa Mãe Universal [...] Não é que sobre a Terra haja vida. A Terra é mesma viva, chamada de Gaia, a deusa grega para significar a Terra viva. Efetivamente, a Terra é Mãe fecunda [...] Para esta tarefa figantesca somos inspirados por um documento precioso: a Carta da Terra. Nasceu da sociedade civil mundial. Em sua elaboração foram envolvidas mais de cem mil pessoas de 46 países. Em 2003 uma resolução da UNESCO apresentou-na como um instrumento educativo e uma referência ética para o desenvolvimento sustentável. Participaram ativamente de sua concepção Mikhail Gorbachev, Maurice Strong, Steven Rockfeller e eu mesmo, entre outros. A Carta entende a Terra como dotada de vida e como nosso Lar Comum. Apresenta pautas concretas que podem salvá-la, cuidando-a com compreensão, com compaixão e com amor, como cabe a toda mãe. Oxalá, um dia, esta Carta da Terra possa ser apresentada, discutida e enriquecida por esta Assembléia geral. Caso seja aprovada, teríamos um documento oficial sobre a dignidade da Terra [...]"[1]

Acredito ter ficado claro nas citações e nos grifos destacados qual é a intenção norteadora dos idealizadores da Carta: estabelecer uma religião global fundamentada no culto universal à Terra, suplantando (como diria Hans Küng) principalmente as religiões ditas "tradicionais" e "fundamentalistas", que apenas ferem a "Grande Mãe". E para quê tal objetivo é estabelecido? Para a legitimação da implantação de um Governo Mundial, a restauração do antigo sonho de Nimrode malogrado pela confusão das línguas imposta por Deus, Javé (YHWH), dificuldade que os apóstolos da "Terra" agora querem superar com a "bênção" de uma outra divindade, Gaia. Só assim, acreditam, alcançarão a "paz mundial".

Caso isso ainda soe como um absurdo, deixo aqui outra fala de Leonardo Boff, para suplantar todas as dúvidas residuais:

"As religiões abraâmicas são as mais violentas, porque acreditam ser portadoras da verdade, como o Papa em Ratisbona. O que é necessário é a espiritualidade, não os credos e as doutrinas"[1].

Para quem já pesquisou sobre a ONU e as doutrinas que motivaram sua fundação, entre as quais a Teosofia de Blavatski, nada disso soa estranho. A substituição das religiões tradicionais, em especial o Cristianismo, por uma religião global que cultua a "Terra" é um objetivo importante na implantação de um governo mundial porque os tais "apóstolos" sabem muito bem que são os aspectos religiosos que dão sentido à vida das pessoas em todos os seus questionamentos e dúvidas, sejam materiais, espirituais e também psicológicos. Eles sabem que não há civilização sem um mito fundador, e que sem ele, qualquer tentativa de criá-la resulta no aparecimento de leviatãs bestiais e sanguinários como o Nazismo e o Comunismo. Um mito fundador, nas palavras de Olavo de Carvalho[2], "não é uma ideologia", não é "um discurso que não compreende a realidade, mas motiva os homens a substituir uma realidade que compreendemos mal por outra da qual não vão compreender nunca". Um mito fundador "é uma verdade inicial compactada que, no desenrolar da história, vai desdobrando o seu sentido e florescendo sob a forma de ciência, de leis, de valores, de civilização", e "constitui-se, em geral, da narrativa simbólica de fatos que efetivamente sucederam, fatos tão essenciais e significativos que acabam por transferir parte do seu padrão de significado para todo o que venha a acontecer em seguida numa determinada área civilizacional". O filósofo ainda completa dizendo que "os esquemas narrativos da literatura superior são os padrões de autocompreensão imaginativa de uma civilização. E os padrões de autocompreensão imaginativa são, por sua vez, os esquemas de ação possíveis". Ou seja, o mito fundador está tanto no fundo de toda a compreensão que uma civilização tem de si mesma quanto de todas as suas possibilidades de ação. Vale lembrar também que os grandes impérios mundiais da antiguidade sempre buscaram a unidade religiosa, utilizando-a como um fator de coesão civilizacional. Para citar exemplos, no Império Romano existia o mito fundador de Rômulo e Remo, e a civilização ocidental tem a Bíblia como mito fundador.

Exatamente por ser a Bíblia o mito fundador do ocidente é que os "apóstolos" de Gaia querem substituí-lo, pois sabem que não há no Cristianismo lugar para o culto à natureza. O Cristianismo é a religião oriunda dos ensinamentos de Cristo, e crê fundamentalmente que Ele é o Deus encarnado, o Logos manifestado em carne, o "verbo vivo", do qual deriva toda a realidade universal física e espiritual. Crê que estamos "dentro" de Deus. Como diria Paulo, "nEle vivemos, nos movemos e existimos". O Deus que é ao mesmo tempo transcendente e imanente não pode ser substituído por absolutamente nada. Isso fica claro, por exemplo, na carta do apóstolo Paulo aos Romanos, quando referindo-se aos cidadãos daquela cidade, diz que

"os atributos invisíveis de Deus, assim como seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas. Tais homens são, por isso, indesculpáveis; porquanto, tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; antes se tornaram nulos em seus próprios raciocínios, obscurecendo-se-lhes o coração insensato. Incultando-se por sábios, tornaram-se loucos, e mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, bem como de aves, quadrúpedes e répteis [...] pois eles mudaram a verdade de Deus em mentira, adorando e servindo a criatura em lugar do Criador, o qual é bendito eternamente. Amém." (Romanos 1:20-23 e 25; o grifo é meu).

No antigo testamento, Isaías profetizou que "Eu sou o Senhor, este é o meu nome; a minha glória, pois, não darei à outrem" (Isaías 42:8). Ambas as citações são obtidas da tradução Almeida Revista e Atualizada da Bíblia.

Tendo ciência disso, se firma como imperativa aos "apóstolos da Terra" a tarefa de destruir o Cristianismo, ou então de esvaziarem-no de todo o seu conteúdo. Parece que optaram pela segunda opção, pois perceberam que a primeira é um mero corolário dela. Para cumprir tal tarefa, entretanto, não partem para o confronto direto, mas valem-se de vários sortilégios e estratagemas, dentre os quais o principal é subverter a linguagem cristã. Alterando (por meio de técnicas de transformação semântica que lembram a construção da novilíngua orwelliana) o sentido de palavras como "amor", "perdão", "união" e "fraternidade" retirando delas o valor e o sentido que lhes foi conferido pela própria experiência da vida de Cristo e da história de seus seguidores, impingem-nas significados vazios com pretenso sentido ético. O resultado disso é nefasto: doutrinas de profundo significado espiritual passam a ser identificadas com um moralismo político oco, com algum valor prático mas sem nenhum valor espiritual.

A partir daí, a colonização de mentes - e consequentemente de espíritos - se torna fácil, e a transformação de cristãos em meros zumbis políticos à serviço da nova ética e propagadores da nova religião se torna mera questão de tempo. A denominação "zumbis" não é por acaso. Estes, na ficção, são amontoados mortos de células que, embora possuam cabeça, esta é desprovida do funcionamento do órgão que os permite alcançarem o nível mais profundo de humanidade e autoconhecimento, e daí buscam qualquer coisa viva (ainda que sob o invólucro de carne, ossos e sangue) que os alimente e os mantenha em pé, numa atração e esfomeamento que denota uma possível lembrança da vida realmente humana que um dia conheceram. No nosso caso, o cristão, o templo do Espírito Santo, quando desprovido dos dispositivos linguísticos que o permitam alcançar por meio da busca sincera e genuína e através de sua cognição e desse mesmo Espírito, seu nível mais humano e ao mesmo tempo mais transcedental, Cristo (a Cabeça da Igreja), transfiguram-se em meros autômatos espirituais, que ao menor sinal de vida plena, expresso ainda que por palavras já esvaziadas de conteúdo, e num lampejo de lembrança da luz que um dia conheceram, apressam-se esfomeadamente a defender qualquer coisa que esteja sob o rótulo de tais palavras, a fim de saciarem seus espíritos semi-mortos. Assim surgem as "Marias do Rosário" ou mesmo os "Hans Küng" da vida, que alegando e acreditando serem cristãos autênticos, defendem qualquer baboseira em nome do "amor", do "perdão", da "união" e da "fraternidade", ainda que em detrimento do Cristianismo que julgam representar. Se autoproclamando detentores e propagadores do verdadeiro evangelho, fazem questão de associarem a si mesmos, de forma raivosa e canina, qualquer coisa que esteja associada à vida plena em Cristo. Já sem vida espiritual, devoram a espiritualidade alheia. Daí a defenderem regimes tirânicos e totalitários desprovido de qualquer valor moral ou espiritual transcendente é um mero pulo.


Eis o belíssimo "paraíso" que os apóstolos da "Terra" prometem e vários cristãos - mesmo de forma subconsciente - estão desejando: um mundo rosáceo, "amoroso", "unido", onde todos são iguais e ninguém pode sequer querer ser diferente, sob pena de ser taxado como um "fundamentalista" nojento e insuportável. Um mundo onde a "Terra" está viva e o ser humano está morto, e não passa de um boneco de barro solto por aí, que em algum momento da "evolução" e por um mero capricho de Gaia se tornou de carne e osso, e deve ser descartado tão logo esta perceba que o tal não lhe serve, ainda que sequer tenha saído do útero que o gera. Eis a "Magna Mater", a gentil mãe, cujo ventre é o gerador universal dos mortos-vivos.


Referências:
[1] "Poder Global e Religião Universal". Mons. Juan Claudio Sanahuja. Ed. Ecclesiae, 2012.
[2] "O Mínimo Que Você Precisa Saber Para Não Ser Um Idiota". Olavo de Carvalho. Ed. Record, 2013; 8ª edição.